Os Três Círculos da Existência
Tradução de San e Revisão de Lilius
O índio vermelho das planícies e das florestas norte-americanas representava sua tribo como um círculo, “o círculo da nação”.1 Entre os índios das planícies — pois são esses dos quais essencialmente falaremos —, o “círculo” era tornado repetidamente visível na disposição do acampamento: os tipis2 eram colocados em círculos concêntricos em torno do tipi ritual, no centro do qual o fogo sagrado, transmitido de acampamento em acampamento, queimava incessantemente. Já o “círculo da nação” é uma representação de um círculo do horizonte, o qual, por sua vez, é a linha e o suporte na Terra da abóbada celeste.3 Isso significa que a unidade da tribo é, no plano terrestre, uma projeção da Unidade universal. Além do mais, vale notar que o círculo do horizonte une os quatro pontos cardeais, simbolizando o fato de que essa sagrada Quaternidade transcende a multiplicidade do mundo humano. Os dois pares de pontos cardeais voltados um para o outro não implicam qualquer oposição, pois os dois elementos de cada par se completam em uma polaridade que é uma expressão direta da Unidade principal.4
No entanto, quando projetadas na matéria coagulada do mundo formal, essas polaridades principais se tornam verdadeiras oposições. O eixo “vertical” da cruz cósmica, que une a pureza do Norte com a plenitude e a vida do Sul, é o “caminho do bem”, o qual é vermelho; já, ao contrário, o eixo “horizontal”, que “vai de onde vivem os seres do trovão”, ou seja, o Ocidente, “para onde o sol brilha continuamente”, isto é, o Oriente, é um “caminho temível, um caminho de problemas e de guerra”,5 o qual é negro.6 Assim, quando Hehaka Sapa (Black Elk) descreve a existência de seu povo após a catástrofe da “quebra do círculo da nação”, ele diz: “Eles estavam viajando pela estrada negra, cada um por si, com suas próprias regras”;7 pois “a vida daquelas pessoas estava no círculo, e o que são essas pequenas vidas se a essência daquelas vidas se foi?”.8
As regras sociais cuja ausência Black Elk lamenta eram antigamente determinadas por normas cósmicas: o “círculo da nação”, como dissemos, era uma imagem no plano humano do horizonte circular, que continha o mundo empírico do índio e que, consequentemente, era uma imagem integral do Universo. Black Elk indica a relação hierárquica entre os dois círculos dizendo que “o círculo dos quatro quadrantes nutria [...] o círculo sagrado da nação. O Oriente deu paz e luz; o Sul, calor; o Oeste, chuva; e o Norte, com seu vento frio e forte, deu força e resistência”.9 Portanto, quando o círculo da nação foi quebrado, a causa imediata dessa calamidade foi a destruição — ou pelo menos uma certa “perturbação” — do “círculo dos quatro quadrantes”; e a quase demolição do universo visível que cercava o modo de vida dos nômades índios vermelhos simbolizava essa crise cósmica. Essa demolição foi causada pelos invasores brancos, que tomaram à força posse de suas terras e quase exterminaram o mais importante do “povo” de quatro patas, os rebanhos de búfalos. Na verdade, como resultado desse duplo saque, os índios foram finalmente isolados do tipo de vida que havia sido o seu modo de “preencher” o círculo do horizonte, isto é, de realizar as possibilidades contidas no Universo. O extermínio do búfalo é particularmente significativo neste aspecto, uma vez que esse animal, pela variedade de usos que tinha para os índios, era ele próprio um símbolo do Universo.
Agora, na grande visão de Hehaka Sapa — à qual ele dedicou toda a sua vida interpretando e compartilhando com seu povo, em vistas à salvação dele — existe uma correspondência que relaciona a catástrofe dos índios não apenas ao ataque ao mundo visível que envolve sua existência, mas também, simbolicamente, ao fim apocalíptico de seu protótipo: o mundo inteiro. Há uma passagem10 na qual Black Elk vê seu povo escalando quatro colinas, uma após a outra. Esses graus representam para muitos as etapas na dissolução da “nação”, e também simbolizam de maneira impressionante as quatro eras da humanidade. Após a subida da primeira colina, o povo “acampou no círculo sagrado como antigamente, e no centro estava a árvore sagrada, e a terra ao nosso redor ainda era toda verde”. Antes de subir na segunda colina,
[...] as pessoas transformaram-se em alces e bisões, em todos os seres de quatro patas e até mesmo em aves, todos caminhando juntos de maneira sagrada pela boa estrada vermelha. Eu mesmo era uma águia manchada pairando acima deles.11 Mas, assim que paramos para acampar no final desse percurso, todos os animais em marcha ficaram inquietos e com medo de que não fossem mais o que costumavam ser, e começaram a prenunciar dificuldades, chamando seus líderes. Quando acamparam no final desse percurso, olhei para baixo e vi que folhas estavam caindo da árvore sagrada [...].
Então, o povo desmontou acampamento novamente e viu a estrada negra diante deles em direção ao lugar onde o sol se põe [...]. Enquanto subiam o terceiro percurso, todos os animais e aves que eram o povo corriam para cá e para lá, pois cada um parecia seguir a própria visão apequenada que tinha e as próprias regras; e, por todo o universo, eu conseguia ouvir os ventos em guerra, como bestas selvagens lutando.
Quando alcançamos o cume do terceiro percurso e acampamos, o círculo da nação estava quebrado como um anel de fumaça que se espalha e se dispersa, e a árvore sagrada parecia morrer, e todas as suas aves haviam desaparecido. Quando olhei para a frente, vi que o quarto percurso seria terrível.
Então, quando o povo estava se preparando para começar o quarto percurso, a Voz12 falou como alguém chorando e disse: “Olhe lá, olhe para a sua nação!” Quando olhei para baixo, as pessoas todas haviam voltado a serem humanas, estavam magras, seus rostos afiados, pois estavam famintas. Seus cavalos eram só pele e ossos, e a árvore sagrada havia desaparecido.
Após afirmar que “o círculo dos quatro quadrantes nutria [...] o círculo sagrado da nação”, Hehaka Sapa observa13 que “esse conhecimento nos veio do mundo exterior14 com a nossa religião”. Por meio dessas palavras, ele compreende implicitamente que o conhecimento em questão — que, em si, é cosmológico — é apenas uma aplicação de princípios puramente metafísicos. Assim, por exemplo, se “o Poder do mundo sempre opera em círculos”, como diz Black Elk,15 isso se dá porque, metafisicamente falando, o Grande Espírito em si é um Círculo: “Wakȟáŋ Tȟáŋka, como o círculo, não tem fim”.16
Agora, se toda criatura é feita à imagem do “Círculo” principial, isso significa que este está misteriosamente presente nela como sua Fonte e Fim ontológicos, por um lado, e como sua Essência supra-ontológica, por outro, através da qual a criatura participa da Realidade absoluta e infinita. O atributo de “Avô”, particularmente usado ao designar o aspecto mencionado de Wakȟáŋ Tȟáŋka, possui o caráter “apofático” que deveria ter, uma vez que um avô não exerce uma função paternal em relação aos seus netos, pelo menos não diretamente: é o pai, propriamente dito, que reflete o Princípio ontológico. O aspecto “avô” é a própria “alma” da Divindade Indígena. Na verdade, quando Black Elk se refere a isso, ele quase sempre menciona ambos os atributos, “Pai” e “Avô”, ou apenas este último. Em pelo menos um trecho, ele indica a distinção entre os dois aspectos de Wakȟáŋ Tȟáŋka de maneira clara: “Meu Avô, Wakȟáŋ Tȟáŋka. Você é tudo. E meu Pai, Wakȟáŋ Tȟáŋka, todas as coisas pertencem a você!”17 Ou seja, no último caso, a dualidade Criador-criação ainda não é superada; este é o ponto de vista dos seres e das coisas que recebem toda a sua luz e vida do Sol; no primeiro caso, pelo contrário, o indígena se identifica com a Luz indivisa da “Esfera” celestial.18
Há uma aparente contradição no fato de que as seis Potências do Universo — que, em si, pertencem à ordem ontológica — são representadas na visão de Black Elk como muitos “Avôs”. Contudo, isso é explicado pelo caráter “polissintético” da Divindade indígena, uma perspectiva na qual os dois Aspectos Divinos, bem como o Espírito Universal, o cume supra-formal da criação, são colocados no mesmo “eixo”. De acordo com essa perspectiva, tudo no Universo participa de maneira direta na natureza do “Avô” Wakȟáŋ Tȟáŋka.
Benjamin Black Elk, filho do sábio com quem tivemos ocasião de nos encontrar, chamava a isso de “Presença”19 no homem, esse foco de virtualidades espirituais ilimitadas, o “tipi do coração”. Essa expressão de um indígena de nosso tempo é de grande importância, pois sugere quais possibilidades ainda permanecem, apesar de tudo, para os índios contemporâneos realizarem o “conhecimento dos Círculos” em seu aspecto essencial. Pois esse “tipi” pode ser assimilado ao tipi ritual situado no centro do acampamento: assim como a periferia desse tipi central era concêntrica ao acampamento (que simbolizava o “círculo sagrado da nação”) e, portanto, ao grande círculo dos Quatro Quadrantes, da mesma forma, a vida interior do homem é normalmente um reflexo do Universo macrocósmico, bem como, até certo ponto, da coletividade religiosa que corresponde a ele no plano da vida social.20 O tipi ritual e, mais especialmente, o fogo nunca extinto que arde no seu centro, forma, no ponto onde as seis direções se encontram, uma “sétima” direção, que na realidade é uma “não-direção”, na medida em que sintetiza a diversidade das outras direções. Analogamente, o coração de um homem centrado espiritualmente é uma síntese de todo o Universo21 e, a fortiori, do gênio de seu povo; e o “fogo” que ele abriga é uma resposta perpétua ao chamado do Grande Espírito. Agora, se o coração do homem é tudo isso, é porque neste mundo inferior ele simboliza o próprio Protótipo de todos os “círculos”, o de Wakȟáŋ Tȟáŋka. Esse supremo “Círculo” é representado na visão de Hehaka Sapa pelo “Tipi feito de nuvens dos Seis Grandes Avôs”. Assim, o “tipi do coração” é a imagem perfeita desse Tipi celestial.
Esse “Reino de Deus dentro de vós” é um Templo que ninguém pode profanar de fora, nem sequer se aproximar; portanto, os Brancos, apesar de repetidas tentativas, não conseguiram privar os índios inteiramente de sua vida mística. Na verdade, sabe-se que a elite entre eles conseguiu preservar a essência de sua religião da catástrofe geral ao distingui-la — na medida em que foi necessário — do seu suporte substancial, o lado social e “material” da tradição. Além disso, o “círculo das quatro direções” em sua manifestação como o mundo visível do Homem Vermelho evidentemente não foi completamente destruído, pois, independentemente da maneira particular como os índios o viam, a Natureza como tal ainda existe. Dado o papel predominante que a Natureza desempenha na contemplação desses povos, sua renovação rítmica está intimamente ligada à perpetuação de sua religião em sua essência, apesar de tudo. Nesse aspecto, citemos as seguintes palavras ditas a Joseph Epes Brown por um “guardião do Calumet”:
Embora tenhamos sido esmagados pelo homem branco de todas as maneiras possíveis, ainda temos muitos motivos para agradecer ao Grande Espírito, pois mesmo neste período de escuridão, Seu trabalho na Natureza permanece inalterado e é um lembrete contínuo da Presença Divina.22
Independentemente da maneira particularmente trágica com a qual a tradição dos índios vermelhos têm sucumbido, pelo menos em seus aspectos exteriores, pode-se dizer que o trabalho de “interiorização” realizado por sua elite é exatamente o mesmo que deve ser realizado, nesta última fase da “era das trevas”, por qualquer pessoa que deseje salvar sua alma: uma concentração na “única coisa necessária”, uma concentração que implica, a fortiori, uma submissão consciente à Lei religiosa, a Lei do “círculo sagrado da nação”.
Consequentemente, pode-se dizer que, no coração de cada pessoa centrada espiritualmente, a restauração universal é “prefigurada” — uma restauração que, ao final da grande visão de Black Elk, é simbolizada pela renovação de seu povo. Quando isso ocorreu por intermédio do visionário, ele foi levado ao “mais alto de todos os montes”, de onde viu “todo o círculo do mundo”.23 Black Elk continua: “E quando eu estava lá, vi mais do que posso contar, e entendi mais do que vi; pois estava vendo de maneira sagrada a forma de todas as coisas no espírito, e a forma das formas, como elas devem viver juntas como um único ser”.24 Graças ao seu caráter universal, a restauração na qual Black Elk está idealmente presente aqui implica a de todas as formas tradicionais: estas são representadas como um número indefinido de círculos, dos quais o da nação de Black Elk é apenas um. A essência comum de todos os círculos é, ao mesmo tempo, o Círculo Infinito de Luz e a Árvore da Vida que cresce em seu centro, e que é nutrida por ela: “E vi que o círculo sagrado do meu povo era um entre muitos círculos que formavam um círculo, amplo como a luz do dia e como a luz das estrelas, e no centro crescia uma poderosa árvore florida para abrigar todas as crianças de uma mãe e um pai. E vi que era sagrado.”
Artigo original em: The Three Circles of Existence by Kurt Almqvist, with the collaboration of Stephen Lambert
Consulte “Black Elk Speaks” (Morrow, Nova Iorque, 1932; nova edição, Pocket Books, 1973) e “The Sacred Pipe, Black Elk’s Account of the Seven Rites of the Oglala Sioux” (Norman, University of Oklahoma Press, 1967, edição da Penguin Books, 1971). A introdução de Frithjof Schuon para a edição francesa de “The Sacred Pipe” serviu como ponto de partida para o presente artigo. A maior parte desta introdução está contida em um capítulo intitulado “The Sacred Pipe of the Red Indians” em “Language of the Self” (Ganesh & Co., Índia, 1959) pelo mesmo autor.
Isto é, as tendas cônicas. (N. T.)
“Se você subir em uma colina alta e olhar ao redor, verá o céu tocando a terra em todos os lados, e dentro deste cercado sagrado, as pessoas vivem. Portanto, os círculos que fizemos [em nossos rituais] representam o círculo que Tirawa Atius fez para o local de habitação de todas as pessoas” (de um sacerdote Pawnee, falado durante os rituais de Hako, conforme citado por Hartley Burr Alexander, “The World’s Rim, Great Mysteries of the North American Indians”. Univ. of Nebraska Press, Lincoln, 1953, p. 131).
“Os pontos cardeais representam as quatro Manifestações divinas essenciais [correspondentes aos Arcanjos das religiões semíticas]” (Frithjof Schuon, “Language of the Self”, p. 211): e de acordo com Black Elk, esses “quatro espíritos são apenas um, afinal” (Black Elk Speaks, p. 2).
Black Elk Speaks, p. 24.
Se a estrada Norte-Sul é o “bom caminho”, é porque no plano horizontal considerado em sua totalidade, ela representa a “estrada vertical” do Céu de forma mais direta do que a estrada Leste-Oeste, de acordo com o simbolismo hiperbóreo.
Ibid., p. 183.
Ibid., p. 182.
Ibid, p. 164.
Black Elk Speaks, p. 30 e páginas seguintes.
A transformação das pessoas em animais, que deve durar durante a ascensão das segunda e terceira colinas, simboliza a expansão do drama cósmico para domínios sutis que não são os da alma humana. Sozinha, acima deste mundo de transformação, paira a Águia do Espírito, com a qual o visionário se identifica.
Isso é a “grande Voz... do Sul” (ibid., p. 30), a direção para a qual os mortos vão e de onde vem a vida, além da nova vida ansiosamente esperada para as pessoas e para o mundo. Nesse sentido, ao simbolizar a Fonte de toda Vida, a direção do Sul é “o caminho que conduz ao lugar para o qual sempre voltamos nosso rosto”. (The Sacred Pipe, p. 20).
Black Elk Speaks, p. 164.
Frithjof Schuon específica “do Mundo transcendente ou universal” (Language of the Self, p. 219).
Black Elk Speaks, p. 164.
The Sacred Pipe, p. 192.
The Sacred Pipe, p. 49.
“Nosso Avô, Wakan-Tanka. Você é tudo e, ainda assim, acima de tudo! Você é o primeiro. Você sempre foi... Você é a verdade. Os povos bípedes que colocam sua boca neste cachimbo se tornarão a própria verdade” (The Sacred Pipe, p. 13).
Por “Presença”, o autor está se referindo à imanência do grande “Círculo”, o supremo protótipo do cosmos, em todas as criaturas, como explicado dois parágrafos acima. [N. T.]
No ritual de purificação dos Sioux, o principal oficiante chora: “Oh, Wakȟáŋ Tȟáŋka, olhe para mim! Eu sou o povo. Ao me oferecer a você, ofereço todo o povo como um só, para que possam viver! Desejamos viver novamente! Ajude-nos!” (The Sacred Pipe, p. 38).
E torna-se assim um receptáculo para a Presença divina de acordo com o santo ditado (Ḥādīth Qudsi) do Profeta Muḥammad: “Céu e Terra não podem me conter, mas o coração do crente me contém”.
Language of the Self, p. 222, nota de rodapé.
John G. Neihardt, que registrou a história de Black Elk, aqui acrescenta a seguinte nota de rodapé: “Black Elk disse que a montanha em que ele estava em sua visão era o Pico Harney nas Black Hills. ‘Mas qualquer lugar é o centro do mundo’, acrescentou”. Este comentário do sábio indígena vermelho é indiretamente uma maneira de comparar a montanha ao coração do homem, que é sempre subjetivamente o centro potencial do mundo. Consequentemente, “a mais alta de todas as montanhas” pode ser dita como símbolo do máximo de realização espiritual do qual o coração do homem é capaz. Quanto à analogia entre o coração e a montanha — e entre o coração e a caverna, que, de fato, é o “coração” da montanha — veja René Guénon, “The Heart and the Cave” e “The Mountain and the Cave”, Studies in Comparative Religion, Inverno e Primavera, 1971.
Black Elk Speaks, p. 36.






